A escrita salva, o amor salva.

     

     Sentada frente ao computador, finalmente. Como esperei por este momento, como isso me faz feliz!  

E aquí, nos primeiros minutos parece que tudo que eu gostaria de "vomitar" através da escrita: estancouPrimeiro pareiEsperei. A carga está aquí,  precisa "baixar".  

 

Agradeço por este momento de refúgio e refazimento, sentada na praça ao lado da crechecom o computador em cima de uma mesa de madeira, à qual eu agradeço por existir aquí,  que é muito mais cômodo que mantê-lo em cima das pernas... Neste momento eu poderia ou "deveria" estar concluindo o documento de solicitação de novos horários pro ônibus que nos traz a esta crecheou então "poderia e deveria" estar procurando trabalho, mas escolho me refugiar na escrita, antes de mais nada este respiro, para me fortalecer, em meio à enorme intensidade destes últimos dias 

 

Aqui sentada frente ao computador o que sinto é que: o que eu preciso fazer é isto. O que eu preciso "fazer da minha vida" é ESCREVER.  

 

E quanta vergonha ainda tenho hoje de dizer que isto é o que realmente quero...  

 

Neste momento, me incomoda o sol forte na testa, que se abre e logo se fecha. Incomodam as formigas ao redor, e às vezes subindo pela perna. E ao mesmo tempo, me emociona o fato de poder estar frente ao computador, enquanto Mila está ali dentro, na creche. A vida é esta dicotomia às vezesNa mesma situaçãoincômodos e prazerreclamação e gratidão... Será que "precisa" ser assim? 

 

Adoraria que, enquanto estou aqui tranquila escrevendo, Mila estivesse brincando placidamente, mas não sei se é isso que ocorreconfesso que a cada grito de "mamá", eu sinto o coração disparar, penso e sinto que é ela me chamando. Na verdade sinto quase certeza, e confesso que este sentimento de estar sendo chamada agora por ela, incomoda. Muitas vezes incomoda.  

  

No sábado, inclusive, tentei explicar à minha amiga Patri, que quer muito ser mãe um dia, como pode ser a maternidadeao menos no começopedi que elalivre como é hoje no alto de seus 27 anos com seu trabalho e autonomia financeiratentasse imaginar o que é, por exemplosair de casa contando quantas horas vai ficar foranão podendo ainda estar mais que umas 5h ou 6h, talvez. Ter que considerar a outro ser humano em tudo o que ela faz e/ou decide. A depender de quem vai ficar com sua criança, ter que deixar tudo pronto antes de sair, o que não é agora o meu caso, mas é a realidade da maioria. Estar longetrabalhando feliz e com todo o sentimento de liberdademas sabendo que ela tem horário contado para "terminar". Ver todas as suas decisões (tanto as decisões de vida, como as pequenas do dia a diaatreladas a esta condição, que muitas pessoas enxergam somente como uma benção. Sim, no meu coração é uma benção, mas não é assim que todas nós vivemos, nem deveria ser imposto como tal. Ela sentiu um pouco de angústia ao imaginar, e com isso não me interesso que "desista" do cargo antes mesmo de assumi-lo, mas que tenha amplo conhecimento de causa. Precisamos falar mais sobre planejamento prévio à maternidade e à paternidade, mas isso é outro capítulo, longuíssimo por sinal. Desde que pedi a ela para imaginar, percebi ainda mais nuances desta realidade, que  são "vistas" num momento de reflexão assim – e nem sempre  tempo de refletirquase sempre   tempo de estar disponível, nada maisPercebi o paradoxo que existe entre : Viver considerando este ser em tudo que faço e vivo, mas ao mesmo tempo saber que é uma obrigação minha romper com qualquer dependência exagerada, em nome da felicidade de minha filha, e da minha. Lembrando que a dependência é normal, eu sei da importância vital de minha presença na vida dela, e principalmente da minha presença emocional, não  física. Ela merece e precisa de conexãoIsso significa, em muitos casos, ter que estar, mesmo quando não tenho vontade de estar... E ainda por cima nem poder falar muito sobre isso, porque este sentimento diretamente é visto como "pouco amor" ou chama por perguntas tais como estas, tão típicas como crueis: "mas tu não queria ter filhoQueriaentão por quê está reclamando?" Querer ser a melhor mãe possível, mas não entender ainda que: a prática deste querer, inclui algumas "grandes falhas" como por exemplomuitas vezes não se sentir disposta nem disponível. É preciso muito amor, consigo. 


Nossos filhos merecem conexãocarinho e amor – mas se eu não somos capazes de NOS DAR amor nestes momentos de dor que  cada uma de nós consegue entender, menos conseguimos dar para qualquer outro ser humano. Parece clichê, mas hojenesta segunda-feira cheia de coisas pra fazer, onde me sinto extremamente cansada a nível emocional, sem saber em qual abraço poderia repousarfoi este amor que sustentouPrimeiro, o amor de Deus, logo o que eu sinto por mim, e por minha vida. Neste momento me sinto perdida e cansada, mas escrever me salvouuma vez mais escolhi escrever em lugar de cuidar de tarefas pendentes, por amor ao meu bem estar. Eu estou cada vez melhor em cumprir tarefas, mas acima de tudo preciso estar cada vez melhor em : me cuidar, e saber o que preciso fazer de bom por mim a cada momento, para me sentir bemQuem  isso como "egoísmo", provavelmente nunca foi salvo por seu próprio amor.  

 

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